terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O que me despertou hoje?

…É que acordei do fundo do sono sem fundo. Acordei com horror ao mundo, com um tédio ancestral. Um desamparo de viver levantou comigo da cama, é como uma saudade prolixa do que nunca conheci ou uma lembrança de guerra que nunca lutei. É um tédio incompreensível de ser. Hoje só estou disposto a perder aquilo que nunca tive, e mesmo assim sentirei a ausência incógnita do que cedi. Escorrerá sangue do que foi levado e, será um troféu bizarro do tédio que tenho hoje.
Pela minha consciência vão se passando dias, meses, anos, décadas, séculos. Um relógio descontrolado que acelera meu descontrole me despertou ao dia. É um texto na íntegra de um livro intenso que passa por mim e todos os seus volumes é a dor da minha vida inteira. Eu sou um livro estranho, numa língua estranha, publicado por quem não me soube traduzir.
Estou com peso de acordar incógnito! Estou como corda roída, prestes a estourar em ser inteiro. O passado destruiu sua sepultura, uma dor terrível despertou do enterro vivo da qual foi precipitada. O passado acaricia-me com língua enjoativa. Passei a vida inteira vendendo a ilusão que a verdade era meu álibi. Eu criei uma esperança para aliviar uma vida que não foi aliviada. Será que menti uma verdade inventada? Será que fui capaz de salmodear a hipocrisia de ser? É o meu dragão de chamas falsas.
Sei que acordei em uma cela que aprisiona por estar vivo. O horror do espelho fosco de meu espírito saiu dos lençóis comigo, um anjo diabólico entoou seu riso cristalino no meu despertar. Uma melancolia atemporal despertou-me a vida, estou hoje como poço sem profundidade, tão profundo que a noite não pensou em ser.
Há em mim, um cheiro de um livro desesperado, com chinês sem parentes ou sobrevivente de homem-bomba. Estou crepitando-me no amargo amparo desta solidão. Eu conheço bem a vida, estou sempre em perigo de perdê-la, daí provém minha alegria maior. O valor está no risco e eu quero amar para aceitar até a morte.
Sei que estou lutando com a magoa de ser só. Estou com uma vacuidade, como se fosse uma noz vazia que implora para ser partida. São esses dias do segundo mês do ano que me consome com ar gélido que amortiza. É que hoje, eu acordei de um sono alegre com triste fim e, restou-me apenas o desespero trágico dessas horas.
Lembro-me da noite a espreitar, ela de pitada de estrela em estrela, construiu minha solidão. A Lua minguante minguava minha alegria, e minha alegria queria a eternidade nela mesma. E a noite amargurada, criou em mim uma acrimônia de viver. Tenho que tomar cuidado, quanto mais se entra na noite mais a noite entra em mim.
Eu olho espantado o Sol, sua tristeza irradia no concreto das horas deste dia. Escuto seus soluços, com a proximidade das nuvens que parecem terem saídas das trevas. Suas lágrimas respingam minha face. A chuva caindo e minha fisionomia caindo junto, as águas levando todo o resto de alegria que ainda poderia haver em mim.
Minha alegria morreu ao ver nascendo o dia. Tenho a sensação que todos os problemas são insolúveis. A minha vida é a mentira que engoliu a luz do Sol e estou me vendo por dentro do escuro e retive um sentido oculto das horas sagradas, mas todas as horas são sagradas para mim. Temo o medo que tenho dos ecos oriundos dessas horas, porque eu já morri de ter esperança na esperança. A esperança é sempre violenta e cruel.
Sei que jogo palavras sem lastro, pois sou feito disso: retalho de coisas achadas e perdidas. E eu não tenho muito a oferecer, tenho em mim um desastre por dia. Todos os desastres vêm-me cobrar hoje, o despejo insólito numa chuva de desesperança.

Um comentário:

  1. Ai rapaz, meu amigo, putz, teu texto ficou bem pesado, ficou muito bom, mas bem pesado e melancólico, putz, tristeza sem fim.

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