domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ah, esse meu coração....

Ah, esse meu coração que não aprende.

É um louco desvairado e descomedido, que bate-me insanamente por qualquer brisa leve de esperança. Qualquer sussuro leve de atenção, já abre descompassadamente um sorriso atônito, uma assombração a minha espécie humana.




Ah, esse meu coração que não aprende.

Joga-se na órbita das ilusões, cai frenéticamente como que sussurrando um alento de desejo. Um desejo tão verdadeiro, que subnutri minha vida como um todo.




Ah, esse meu coração que não aprende.

Induz-se conscientemente para aquela esperança de ser correspondido, mesmo uma atenção leve do que é desejado, já é motivo suficiente para se ensaidecer e enlouquecer seu usuário.




Ah, esse meu coração que não aprende.

Já apanhaste tanto da vida, já sofrestes tantas amarguras e continuas sendo o ingênuo que confia. Não sabes que a vida maltrata os ingênuos e vilipendia-os a qualquer lugar onde a solidão abrasa?




Ah, esse meu coração que não aprende

Não é suficiente ser tão desvairado e tão elouquente em minha cabeça? Poderia ao menos fazer um breve silêncio. Um repouso, uma angústiante solidão de ti, faria-me o mundo ser ao menos, suportável.




Ah, esse meu coração pedinte.

Chora uma atenção alheia que envergonha seu portador. Pede com uma frequência absurda, um novo romance, um novo flerte e nova paixão. Chora descompassadamente, por um amor. Não, não adianta explicar que o amor não existe. Esse meu coração não aprende.




Ah, esse meu coração sofredor.

Sofre alucinadamente, e as vezes teve pouco contato com o objeto do seu desejo. Lá vai ele, soluçando sorrateiramente em mim, por quem jamais lhe deu um motivo para isso.

Qualquer Simplicidade

O sono despertou com insônia. O mundo acordou bêbado de toda a sua arrogância. As flores despedaçadas de suas belezas. O vento uivando de sua estagnação. O concreto nublado do céu, transparece qualquer coisa ainda obscuro para mim. Uma coisa que sei instintivamente e não sei explicar ou entender. As emoções estão sendo decaptadas por essa ainda vaga ausência de vida. Necessito de uma pulsação irreal, que me descontrole e dilacere-me do cotidiano. Tenho horror ao cotidiano. Preciso absorver alguma sensação, qualquer briza suave me faria feliz. Eu, como criança que sou, me divirto com qualquer coisa simples. A simplicidade é meu alíbi.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O que me despertou hoje?

…É que acordei do fundo do sono sem fundo. Acordei com horror ao mundo, com um tédio ancestral. Um desamparo de viver levantou comigo da cama, é como uma saudade prolixa do que nunca conheci ou uma lembrança de guerra que nunca lutei. É um tédio incompreensível de ser. Hoje só estou disposto a perder aquilo que nunca tive, e mesmo assim sentirei a ausência incógnita do que cedi. Escorrerá sangue do que foi levado e, será um troféu bizarro do tédio que tenho hoje.
Pela minha consciência vão se passando dias, meses, anos, décadas, séculos. Um relógio descontrolado que acelera meu descontrole me despertou ao dia. É um texto na íntegra de um livro intenso que passa por mim e todos os seus volumes é a dor da minha vida inteira. Eu sou um livro estranho, numa língua estranha, publicado por quem não me soube traduzir.
Estou com peso de acordar incógnito! Estou como corda roída, prestes a estourar em ser inteiro. O passado destruiu sua sepultura, uma dor terrível despertou do enterro vivo da qual foi precipitada. O passado acaricia-me com língua enjoativa. Passei a vida inteira vendendo a ilusão que a verdade era meu álibi. Eu criei uma esperança para aliviar uma vida que não foi aliviada. Será que menti uma verdade inventada? Será que fui capaz de salmodear a hipocrisia de ser? É o meu dragão de chamas falsas.
Sei que acordei em uma cela que aprisiona por estar vivo. O horror do espelho fosco de meu espírito saiu dos lençóis comigo, um anjo diabólico entoou seu riso cristalino no meu despertar. Uma melancolia atemporal despertou-me a vida, estou hoje como poço sem profundidade, tão profundo que a noite não pensou em ser.
Há em mim, um cheiro de um livro desesperado, com chinês sem parentes ou sobrevivente de homem-bomba. Estou crepitando-me no amargo amparo desta solidão. Eu conheço bem a vida, estou sempre em perigo de perdê-la, daí provém minha alegria maior. O valor está no risco e eu quero amar para aceitar até a morte.
Sei que estou lutando com a magoa de ser só. Estou com uma vacuidade, como se fosse uma noz vazia que implora para ser partida. São esses dias do segundo mês do ano que me consome com ar gélido que amortiza. É que hoje, eu acordei de um sono alegre com triste fim e, restou-me apenas o desespero trágico dessas horas.
Lembro-me da noite a espreitar, ela de pitada de estrela em estrela, construiu minha solidão. A Lua minguante minguava minha alegria, e minha alegria queria a eternidade nela mesma. E a noite amargurada, criou em mim uma acrimônia de viver. Tenho que tomar cuidado, quanto mais se entra na noite mais a noite entra em mim.
Eu olho espantado o Sol, sua tristeza irradia no concreto das horas deste dia. Escuto seus soluços, com a proximidade das nuvens que parecem terem saídas das trevas. Suas lágrimas respingam minha face. A chuva caindo e minha fisionomia caindo junto, as águas levando todo o resto de alegria que ainda poderia haver em mim.
Minha alegria morreu ao ver nascendo o dia. Tenho a sensação que todos os problemas são insolúveis. A minha vida é a mentira que engoliu a luz do Sol e estou me vendo por dentro do escuro e retive um sentido oculto das horas sagradas, mas todas as horas são sagradas para mim. Temo o medo que tenho dos ecos oriundos dessas horas, porque eu já morri de ter esperança na esperança. A esperança é sempre violenta e cruel.
Sei que jogo palavras sem lastro, pois sou feito disso: retalho de coisas achadas e perdidas. E eu não tenho muito a oferecer, tenho em mim um desastre por dia. Todos os desastres vêm-me cobrar hoje, o despejo insólito numa chuva de desesperança.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Eu, sou eu outro

Eu, sou eu outro. Penso outro como eu. Sinto outro como eu. Não sei pensar comigo só, necessito do outro como se fosse parte de mim. Apodero-me do outro para chegar a mim. Imito-o tanto para chegar a quem sou e, sou-o tanto que até sangro eu. Necessito tanto do outro, que a ausência me causaria um distúrbio incontrolável, que eu deixaria de ser eu. Sou um ladrão de idéias alheias? Isto não me tornaria um ladrão de mim mesmo, já que as idéias pipocam de mim para mim?

Sou eu inteiro quando tenho espelhos. Alguma forma da qual dependo e do qual vario, sem formas concretas e somente abstrações infinitas, de espelhos em espelhos. Sou o fundo infinito de alguém desesperado e me alargo na espessura fundura deste irresponsável nós. Minha alma se funde nesta emaranhada rede de sensações absurdas e sinceras. Sim, sinceras. A sinceridade é sempre meu maior álibi quanto estou com este outro, que no caso, quer dizer eu. Eu, sou o outro sincero.

Ah, quanta verdade há nesse outro. Tanta verdade que me cega como humano e, me corta rasgando a bala, a indignação que tanta cristalidade me causa. A verdade é o tipo de coisa que dizemos e desejamos não ver a cusparada que lhe tacamos. Gosto da verdade, para os outros. A mentira é que às vezes me salva, a verdade é quase sempre dolorida. Não gosto de dores que me tire da ilusão de viver uma vida normal e com sentido que faça o mundo girar em sua forma natural. Fugo da verdade, mas sempre sinto os seus perdigotos em minha face. Sempre sou eu quem recebe a cusparada da vida, do outro.

O outro sou eu por inteiro. O outro também é eu. E é, de forma completa e absoluta. Mas, eu renuncio a tudo isto, ao outro, ao eu. Eu não quero ser eu, mas acabo chegando ao outro, que também é eu. O que posso fazer, se o círculo sempre se fecha e não consigo romper o que sempre se fecha? Eu não escapo do eu, sempre que se foge se chega mais perto ao Deus que se transformou para si. Ninguém escapa do seu Deus.